Temporada 2019
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mar 2019
quinta-feira 20h30 Jacarandá
Temporada Osesp: Alsop rege a 4ª de Mahler


Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Marin Alsop regente
Coro da Osesp
Coro Acadêmico da Osesp
Valentina Peleggi regente
Lucas Thomazinho piano
Camila Titinger soprano


Programação
Sujeita a
Alterações
Roxanna PANUFNIK
Across the Line of Dreams
Franz LISZT
Totentanz
Gustav MAHLER
Sinfonia nº 4 em Sol maior
INGRESSOS
  Entre R$ 55,00 e R$ 230,00
  QUINTA-FEIRA 28/MAR/2019 20h30
Sala São Paulo
São Paulo-SP - Brasil
Notas de Programa

ROXANNA PANUFNIK [1968]
Cruzando a Linha dos Sonhos [2019] [TEXTO DE JESSICA DUCHEN] [ESTREIA LATINO-AMERICANA]
 - HARRIET TUBMAN [ATTACCA]
 - RANI LAKSHMIBAI OF JHANSI [ATTACCA]
 - HARRIET & LAKSHMIBAI
20 MIN


FRANZ LISZT [1811-1886]
Totentanz [1838-49]
16 MIN


/INTERVALO


GUSTAV MAHLER [1860-1911]
Sinfonia nº 4 em Sol Maior [1899-1901]
- MODERADAMENTE, SEM CORRER
- COMODAMENTE. SEM PRESSA
- COM PLENA TRANQUILIDADE. POCO ADAGIO
- MUITO CÔMODO. A TEMPO
54 MIN


ROXANNA PANUFNIK
Cruzando a Linha dos Sonhos
Texto de Jessica Duchen


Em Cruzando a Linha dos Sonhos, dois coros com duas regentes contam as histórias de duas mulheres extraordinárias que deram tudo de si para salvar seus povos.


Harriet Tubman e Rani Lakshmibai vieram de lados opostos do mundo e, claro, nunca se conheceram — contudo, elas têm mais em comum do que se possa imaginar. Ambas nasceram na década de 1820. Decidiram lutar pela liberdade de seus povos. As duas mudaram seus nomes, simbolizando uma nova ou reformulada condição de ser. Cada uma agarrou-se firmemente à sua fé. E cada uma arriscou sua vida por uma causa maior que ela mesma. Ambas passaram a pertencer ao reino do legendário.


Cada heroína é representada por uma regente, um coro e metade da orquestra. [...]


Nascida em Dorchester County, Maryland [EUA], por volta de 1822, Harriet Tubman fugiu da escravidão em 1849 e tornou-se ativista no resgate de dezenas de outras pessoas. Foi apelidada de “Moisés” por conduzir seu povo à liberdade. Rani Lakshmibai nasceu em Varasani [Índia], em 1828. Casada com o Rana [soberano] do principado de Jhansi, ela herdou a coroa após a morte do marido. [...] Quando uma grande rebelião contra os britânicos se deflagrou em 1857, ela liderou suas forças bélicas na batalha, sendo definida como “a mais corajosa e a melhor”. [...]


Cruzando a Linha dos Sonhos tem três partes. A primeira seção é dedicada a Harriet Tubman. Segue-se um episódio contrastante que conta a história de Rani Lakshmibai. Finalmente, imaginamos um diálogo que mostra as semelhanças, as diferenças e as naturezas inspiradoras das duas mulheres. [...]


[2018]


ROXANNA PANUFNIK & JESSICA DUCHEN


***


FRANZ LISZT
Totentanz


Aparentemente, Totentanz (Dança dos Mortos, uma paráfrase do Dies Iræ) resultou em uma obra inacabada que deveria ter sido chamada de De Profundis, com o subtítulo Salmo Instrumental. Não sabemos o que inspirou esta obra: alguns comentaristas mencionam o afresco II Trionfo Della Morte de Buonamico Buffalmacco [séc. XIV] no Camposanto Monumentale de Pisa (Itália), enquanto outros sugerem uma gravura levando o nome de Totentanz atribuída a Hans Holbein [séc. xvi]. De qualquer forma, Totentanz de Liszt é uma obra impressionante, cheia de efeitos que exigem o maior virtuosismo por parte do artista. O pianista Alfred Brendel se refere a ela como a mais original das três grandes obras concertantes do autor. Ela dá evidência da fascinação do compositor com a morte, juntamente com peças como Funérailles, La Lugubre Gondola e Pensée des Morts.


O formato integral da composição foi elaborado em 1840, mas a première se deu apenas em 1865, quando Hans von Bülow, a quem a obra foi dedicada, a tocou em Haia sob a batuta de Johannes Verhulst. Aqui, Liszt utiliza a sequência gregoriana do Dies Iræ da Missa de Réquiem, uma fonte de inspiração para muitos compositores dos séculos XIX e XX (por exemplo, Berlioz na Sinfonia Fantástica, ou Rachmaninov, na Ilha dos Mortos e nas Variações Sobre um Tema de Paganini). Começando com um tema de oito compassos, Liszt constrói seis variações que poderiam ser consideradas como um ciclo sinfônico: o tema propriamente dito serve de introdução e as duas primeiras variações formam o primeiro movimento; a terceira (molto vivace) faz o papel de um scherzo; a quarta, o de um movimento lento; a quinta é um outro scherzo e a sexta variação, de grandes proporções, tem a função de um finale.


[2007]


JEAN-PASCAL VACHON
Musicólogo pela Universidade de Montreal,
crítico musical, professor e tradutor, leciona
regularmente em instituições como a Webster
University (Viena e Saint-Louis, Estados Unidos).
É autor de notas de programa da Orquestra
Sinfônica de Boston e da Orquestra Sinfônica
de Montreal, e colaborou com a Enciclopédia
Canadense
com verbetes na área de música (2016).


***


GUSTAV MAHLER
Sinfonia nº 4 em Sol Maior


A Quarta Sinfonia de Gustav Mahler, composta entre 1899 e 1901, é a última de suas várias obras inspiradas pela cornucópica A Trompa Mágica do Menino, antologia de poemas populares recolhidos e publicados pelos românticos Achim von Arnim e Clemens Brentano. Em contraste com as demais sinfonias de Mahler, a Quarta surpreende o ouvinte pela recusa à monumentalidade explícita e por um gesto aparentemente menos trágico e heroico, que desafia as premissas do romantismo tardio. É uma obra relativamente curta, com instrumentação mais tradicional e intenção quase camerística, lembrando na forma o classicismo vienense de Haydn, com momentos de intenso lirismo mesclados a passagens de evidente ironia.


Talvez por isso a Quarta seja considerada, hoje em dia, uma das mais acessíveis sinfonias de Mahler. No entanto, o público da época a recebeu com perplexidade e indignação, e o próprio compositor a via como um desafio lançado a seus ouvintes. Em carta a Alma, então sua jovem noiva, o maestro comenta: “Minha Quarta soará muito estranha para você. Ela é toda cheia de humor, mas também muito ingênua. Representa aquela parte de minha vida que ainda é difícil para você aceitar, e que no futuro pouca gente vai compreender”.


Essa sinfonia “mística, confusa e inquietante”, como pretendia Mahler, paradoxalmente é a que mais se aproxima, em seus quatro movimentos, da forma tradicional do gênero sinfônico: forma-sonata, scherzo, adágio e um rondó final que incorpora a canção “Das himmlische Leben” [A Vida Celestial]. Seguindo a tradição do último Beethoven e de Brahms, a peça é pensada a partir do desenvolvimento contínuo de certos motivos musicais básicos, que atravessam toda a obra em diversas variantes, e por vezes são relembrados explicitamente. [...]


No esboço programático original (posteriormente “escondido” por Mahler), o primeiro movimento daria conta, por oposição ao último, da tumultuada “vida terrena”, contrapondo leveza infantil, ardentes impulsos juvenis e uma serena ironia da velhice. [...] O violino solo, afinado um tom acima do normal, anuncia o segundo movimento: uma “dança da morte” paradoxalmente divertida, que no programa original trazia um título menos trágico: “A amiga morte está começando a tocar Tranquilidade”] — um dos mais belos de Mahler — o longo primeiro tema volta-se sobre si mesmo, desdobrando variações numa teia de complexos contrapontos. A música desemboca numa inesperada e deslocada tentativa de valsa, que conduz a um “rompimento” tipicamente mahleriano, abrindo espaço para as variações do segundo tema. [...]


O movimento final recupera e dá sentido aos movimentos anteriores. A canção “A Vida Celestial”, em forma de rondó, completa a Sinfonia “como o topo de uma pirâmide”, na expressão sugerida pelo próprio Mahler. Composta bem antes, em 1892, a canção remete a um dos poemas mais conhecidos de toda A Trompa Mágica, “Der Himmel hängt voll Geigen” [O Céu Está Cheio de Violinos], e também teria servido de inspiração para alguns momentos da Terceira Sinfonia. [...] Nessa canção, que retoma musicalmente diversos momentos da Sinfonia, os anjinhos descrevem, com ironia, as contradições da vida no céu.


A pacata vida celestial é apresentada como um enorme tumulto, uma grande confusão. [...] A canção termina com uma autorreferência musical também irônica, mas muito bonita: um louvor à sensualidade própria da música, que afeta até mesmo a sacralidade de Santa Cecília e seus “esplêndidos músicos da corte”. [...]


Esta Quarta, entre as dez sinfonias de Mahler, é de fato um mundo à parte, e talvez nenhuma outra de suas obras (para não dizer, como na canção, “nenhuma música na Terra”) conseguiu levar tão longe os ideais da ironia trágica romântica, permanecendo ao mesmo tempo clássica e moderna, leve e profunda, séria e bem-humorada, diabólica e angelical, despertando não apenas “os nossos prazeres”, mas também a nossa consciência.


[2015]


JORGE DE ALMEIDA
é doutor em Filosofia e professor de Teoria Literária e
Literatura Comparada da Universidade de São Paulo.