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Restauro









O Projeto arquitetônico

Por Nelson Dupré


No início de 1997 fui convidado pela Secretaria de Estado da Cultura, através do engenheiro Ismael Solé, a participar da concorrência para a restauração da Estação Júlio Prestes e sua adequação para o uso da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, com a implantação de uma sala de concertos. Os desafios me pareciam muito grandes: isolamento e tratamento acústico, restauração e nova arquitetura. Minha experiência prévia em restauração e projetos de teatros e auditórios não me pareceu suficiente, e busquei complementá-la visitando salas de concertos citadas como referência na América do Norte e Europa, estudando seus palcos, sistemas acústicos, áreas de apoio, acessos e fluxos, sentindo como elas soavam, vazias ou em concertos.
Não foi sem conflitos que o projeto chegou a ser definido. A consultoria acústica norte-americana, a cargo da Artec, havia definido alguns padrões para a ocupação do antigo Grande Hall da Estação como sala de concertos. A sugestão do forro móvel, que permitia dar flexibilidade acústica à sala, parecia-nos também garantir uma completa visibilidade do espaço arquitetônico. Entretanto, havia conceitos questionáveis, como o total recobrimento da parte inferior da sala por um balcão corrido e painéis acústicos, que em absoluto garantiam a valorização daquele patrimônio. Nesse debate entre necessidades arquitetônicas e parâmetros acústicos foi fundamental o apoio do consultor acústico brasileiro José Augusto Nepomuceno, e dos profissionais do Condephaat, até chegarmos à solução de balcões individualizados.
Todos os detalhes foram exaustivamente pensados. Parecia-me importante chegar a um desenho simples e coordenado para os novos componentes do espaço, evitando interferências com a arquitetura existente. Na madrugada do último dia de uma semana de discussão com a Artec, em Nova York, sentado na cama do hotel, insone, me ocorreu a ideia que seria adotada para revestir os balcões e os módulos do forro da sala. O conceito é simples: se o ponto de emissão do som no palco for fixo, para se ter uma reflexão sonora multidirecional sempre diferenciada, basta se ter um mesmo elemento multifacetado que se repita em todas as faces de todas as novas superfícies.
E como esse, nasceram milhares de outros detalhes, dessa que foi, sem dúvida, a obra mais significativa de minha vida, ao sintetizar a experiência e conhecimentos de arquitetura e engenharia acumulados ao longo da minha experiência profissional. Mas o resultado final só foi possível graças, também, a uma equipe técnica altamente motivada, com arquitetos participando diretamente na obra, dos quais me orgulho e a quem agradeço ―especialmente à arquiteta Luizette Davini que, no comando desse escritório e na coordenação do projeto, me deu a liberdade necessária para pensar, voar e poder brincar de ser arquiteto como sempre sonhei.
Coroando esse esforço, o projeto da Sala São Paulo recebeu o prêmio de honra 2000 da USITT – United States Institute for Theatre Technology. Foi uma grande satisfação ouvir o arquiteto Richard Blinder, responsável pela recente restauração da Grand Central Station de Nova York, enquanto apresentava diapositivos da obra, anunciar o prêmio diante de uma plateia de 1.500 pessoas, dizendo ser a obra merecedora da distinção “pelo impressionante trabalho de arquitetura efetuado ao transformar uma estação ferroviária em operação em uma fantástica sala de concertos, com os incríveis desafios de acústica que a obra apresentava”. Era a primeira sala de concertos no Brasil e já havia um reconhecimento internacional da sua excelência.

Nelson Dupré
Arquiteto responsável pelo restauro e readequação da Sala São Paulo.