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01218 020 | SÃO PAULO - SP
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SEG A SEX – DAS 9h ÀS 18h
21
mai 2015
quinta-feira 21h00 Jacarandá
Temporada Osesp: Denève, Le Sage e Braley


Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Stéphane Denève regente
Éric Le Sage piano
Frank Braley piano


Programação
Sujeita a
Alterações
Darius MILHAUD
A Criação do Mundo, Op.81a
Francis POULENC
Concerto para Dois Pianos em Ré Menor
Les Biches: Suíte
George GERSHWIN
Um Americano em Paris

bis solistas

Francis POULENC

L'Embarquement pour Cythère

INGRESSOS
  Entre R$ 45,00 e R$ 178,00
  QUINTA-FEIRA 21/MAI/2015 21h00
Sala São Paulo
São Paulo-SP - Brasil
Notas de Programa

Na primeira parte de A Criação do Mundo, de Darius Milhaud, logo após a “Abertura”, uma sequência rítmica criada por um cluster de piano e instrumentos de percussão acentua repetitivamente o tempo fraco do compasso. Sob essa base, solistas (em ordem: contrabaixo, trombone, saxofone, clarinete e trompete) desenvolvem um motivo melódico curto e sincopado em torno de um intervalo característico para o ouvinte mais familiar à música popular: a blue note (tecnicamente falando, a terça e a sétima da escala bemolizadas em choque com a terça e a sétima naturais). Gradualmente, os solistas passam a executar simultaneamente variações do motivo inicial, criando, assim, um emaranhado de vozes. Milhaud nomeou esta primeira parte da peça, escrita num único movimento, como “O Caos Antes da Criação”. Revelador e sintomático: o caos está associado à vibração rítmica e à polifonia de vozes que insistem naquelas notas “fora” da escala tradicional da música europeia.


Segundo o compositor, nas memórias registradas no livro Notes Sans Musique (1949), esta peça foi composta em seu retorno à França, depois de um período de residência nos Estados Unidos. O pintor Fernand Léger e o poeta Blaise Cendrars lhe propuseram a criação de um balé inspirado numa história folclórica africana que eles conheceram num livro genérico de antologia “negra”. Mais do que isso, os dois levaram Milhaud para conhecer um aspecto de Paris que ele ignorava: a simultaneidade das diferentes danças que a cidade proporcionava. No entorno do bairro de Belleville, o compositor descobriu os pequenos cafés com grupos musicais formados por acordeão e clarinete (ou pistão ou violino), em que homens vestidos com camisas coloridas dançavam alegremente com jovens moças. Um grande contraste com a região atrás da Bastilha, onde os auvergnats de Paris [migrantes responsáveis por pequenos serviços] ainda dançavam a bourrée ao som da antiga viela medieval. Sem falar que, ao mesmo tempo, os antilhanos da rua Blomet sacolejavam com suas mulheres, ornadas pelos radicionais madras [lenços de cabelo coloridos do Caribe], um ritmo visceralmente associado às suas ilhas e palmeiras. Para Milhaud, esses estímulos tiveram um efeito certeiro: “A Criação do Mundo enfim me ofereceu a ocasião de usar os elementos de jazz que havia estudado dedicadamente; organizei minha orquestra como as do Harlem, com 17 músicos solistas, e utilizei o estilo do jazz sem reservas, misturado com um sentimento clássico”.1


O tal motivo melódico em torno da blue note foi consagrado na linguagem musical do compositor norte-americano George Gershwin, alguns anos depois de Milhaud, pela difusão no repertório sinfônico internacional das peças Rhapsody in Blue (1924) e Um Americano em Paris (1928). Ironicamente, hoje em dia esse motivo soa na peça de Milhaud como um fraseado gershwiniano avant la lettre. Mas não podemos perder do horizonte que os dois estavam bebendo na mesma fonte — o jazz de Nova Orleans e Chicago, que vinha se consolidando como linguagem musical derivada dos cantos de trabalho escravo dos negros norte-americanos, do spiritual protestante e do ragtime. Mas Milhaud e Gershwin tinham experiências e pontos de vista diferentes. O primeiro vinha de uma Europa que procurava novos elementos musicais para a inspiração de uma música clássica, em certa medida saturada por sua própria história. Gershwin buscava na música clássica europeia formas sinfônicas para desenvolver uma música híbrida do novo mundo, com os sons que se fazia nas ruas.


Um Americano em Paris é uma peça com forte apelo descritivo. O compositor procurou, como sugere o título, traduzir as impressões desse homem do novo mundo no velho mundo. Nesse sentido, a força melódica que vem de gêneros como o ragtime, o charleston, o blues e o jazz vira o centro condutor das peripécias desse voyeur americano. Mas, se em Milhaud a mistura do sentimento “clássico” com o jazz trouxe certa melancolia em sua “criação do mundo”, em Gershwin essa mistura é mais eufórica. A peça inspirou o filme homônimo, de 1951, produzido em Hollywood, com Gene Kelly como astro, e Um Americano em Paris se tornou um clássico popular.


É absolutamente plausível então dizer que A Criação do Mundo e Um Americano em Paris se coadunam e se contradizem, tanto na singularidade de seus estilos como na questão cultural mais ampla, que diz respeito às relações entre Europa e Américas.


Francis Poulenc fez parte de um grupo de franceses do começo do século XX, com Blaise Cendrars, Fernand Léger e Jean Cocteau, entre outros, que ampliaram os horizontes culturais europeus buscando os sons e os sentidos de “outras” artes do mundo. No caso particular da música, Poulenc e Milhaud, juntamente com Georges Auric (1899-1983), Louis Durey (1888-1979), Arthur Honegger (1892-1955) e Germaine Tailleferre (1892-1983), formaram o Grupo dos Seis, com o qual exercitaram certa escrita coletiva em torno da personalidade influente de Cocteau.


No Concerto Para Dois Pianos em Ré Menor, Poulenc se inspira na música circular da ilha de Bali, baseada nos sons dos gamelões. O moto-perpétuo presente na peça é um eco da incorporação desse mundo sem cadências e resoluções harmônicas, que se opõe ao mundo tonal europeu do final do século XIX. Alguns efeitos de ataques da orquestra lembram sonoridades jazzísticas.


Em Les Biches [As Corças], um balé do empresário russo Serge Diaghilev coreografado por Bronislava Nijinska (irmã do célebre bailarino), a música dialoga com certo universo de referências que se convencionou chamar de surrealismo, em que a reminiscência dos estilos de Mozart, Scarlatti e Tchaikovsky parece passar pelo olho mágico de O Carnaval Dos Animais (1886), de Camille Saint-Saëns, sob a escrita mais contemporânea de Poulenc.

CACÁ MACHADO é compositor e historiador, professor do Departamento de Música do Instituto de Artes da Unicamp, autor dos livros O Enigma do Homem Célebre (IMS, 2007), Tom Jobim (Publifolha, 2008), Todo Nazareth: Obras Completas (ÁguaForte, 2011) e do CD eslavosamba (YB/Circus, 2013).


1. Milhaud, Darius. Notes Sans Musique. Paris: Julliard, 1949, p. 53.

 

 

 

 

PROGRAMA

STÉPHANE DENÈVE regente
ÉRIC LE SAGE piano
FRANK BRALEY piano

 

DARIUS MILHAUD [1892-1974]
A Criação do Mundo, Op.81a [1923]
- Abertura: Modéré
- I. Le Chaos Avant La Création [O Caos Antes da Criação]
- II . La Naissance de la Flore et de la Faune [O Nascimento da Flora e da Fauna]
- III . La Naissance de l’Homme et de la Femme [O Nascimento do Homem e da Mulher]
- IV. Le Désir [O Desejo]
- V. Le Printemps ou l’Apaisement [A Primavera ou o Apaziguamento]
16 MIN

 

FRANCIS POULENC [1899-1963]
Concerto Para Dois Pianos em Ré Menor [1932]
- Allegro ma Non Troppo
- Larghetto
- Allegro Molto
20 MIN
______________________________________
FRANCIS POULENC [1899-1963]
Les Biches: Suíte [As Corças] [1922-3]
- Rondeau
- Adagietto
- Rag-Mazurka
- Andantino
- Finale
16 MIN

 

GEORGE GERSHWIN [1898-1937]
Um Americano em Paris [1928]
20 MIN


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